Tipos de apego: os 4 estilos, suas causas e como mudam
Equipe editorial do Type of You17 min de leitura

Pontos principais
- Apego é o hábito de buscar proximidade e segurança nas relações íntimas. A teoria nasceu com Bowlby, a partir da relação entre bebês e cuidadores.
- O apego adulto se descreve em duas dimensões, ansiedade de apego e evitação de apego. Suas combinações formam os quatro tipos: seguro, ansioso, evitativo e desorganizado.
- O apego é um espectro, não quatro caixinhas: quem fica perto de uma fronteira costuma ter traços de dois tipos.
- O apego tem estabilidade moderada, mas se move. Em média, ansiedade e evitação caem com a idade, e quem tem parceiro tende a pontuar menos nas duas.
- Estilo de apego é um padrão de relação, não um transtorno de personalidade. Perceber os gatilhos e dizer com clareza o que precisa é o começo do caminho para o seguro.
Os tipos de apego descrevem como uma pessoa se aproxima, se protege e pede ajuda nas relações íntimas: seguro, ansioso, evitativo e desorganizado. Apego (attachment, também traduzido como vínculo) é o conjunto de hábitos de querer chegar perto, temer se machucar e escolher a quem recorrer. Na infância, o alvo são os cuidadores; na vida adulta, quase sempre o parceiro e os amigos mais próximos. A psicologia os descreve em duas dimensões: o quanto você teme ser deixado (ansiedade de apego) e o quanto depender dos outros te incomoda (evitação de apego).
O que é apego? Um programa embutido para “o que fazer quando preciso de alguém”
Apego é o laço afetivo entre uma pessoa e um alvo específico, e o modo como ela busca segurança nesse alvo quando sente medo, tristeza ou estresse.
O psiquiatra britânico John Bowlby propôs a teoria do apego a partir do fim dos anos 1950. A ideia central: o bebê chora, agarra e segue o cuidador porque a proximidade traz proteção. É um sistema que evoluiu para a sobrevivência, e não sinal de “mimo”. Sua colaboradora Mary Ainsworth acrescentou outro conceito-chave, a “base segura” (secure base): a criança só explora o mundo à vontade quando confia que o cuidador está por perto, e volta para recarregar quando fica insegura (Bretherton, 1992). Na vida adulta é parecido: saber que alguém fica firme no lugar é o que deixa você ir um pouco mais longe.

Bowlby também achava que a criança, a partir das vezes em que é atendida ou não, vai formando “modelos internos de funcionamento” (internal working models): expectativas sobre se merece ser amada e se os outros são confiáveis. Essas expectativas vão junto para as relações seguintes. Em 1987, Cindy Hazan e Phillip Shaver levaram formalmente esse quadro para o amor adulto, defendendo que se apaixonar também é um processo de apego (Hazan & Shaver, 1987).
No dia a dia, é mais ou menos assim: com febre de madrugada, para quem você pensa em mandar mensagem primeiro? Se a pessoa não responde, você manda mais três, liga na hora ou engole um remédio e deixa para amanhã? Esse reflexo é o seu sistema de apego em ação.
De onde vem a teoria do apego: do laboratório de bebês ao amor adulto
A teoria do apego foi proposta por Bowlby e verificada por Ainsworth com observação, e só chegou ao amor adulto depois dos anos 1980; os “quatro tipos de apego” que circulam na internet, na verdade, foram emendados de vários estudos diferentes.
| Época | Quem | O que fez | Quem foi estudado |
|---|---|---|---|
| Do fim dos anos 1950 | John Bowlby | Propôs a teoria: buscar o cuidador é um sistema inato de proteção | Bebês e crianças pequenas |
| 1978 | Mary Ainsworth e colegas | Com a “Situação Estranha”, separou os tipos seguro, evitativo e ansioso-ambivalente | Bebês de cerca de 1 ano |
| 1986 e 1990 | Mary Main e Judith Solomon | Acrescentaram uma quarta categoria, a desorganizada | Bebês |
| 1987 | Hazan e Shaver | Levaram os três tipos para o amor adulto, medidos por questionário | Adultos |
| 1991 | Bartholomew e Horowitz | Propuseram quatro categorias adultas, cruzando visão de si e visão dos outros | Jovens adultos |
| 1998 | Brennan, Clark e Shaver | Reuniram muitas escalas e chegaram a duas dimensões, ansiedade e evitação | Adultos |
A “Situação Estranha” (Strange Situation) é uma observação de laboratório criada por Ainsworth: numa sala desconhecida com brinquedos, o cuidador sai duas vezes, na primeira deixando a criança com um estranho e na segunda a deixando sozinha, e depois volta. O que mais interessa aos pesquisadores é o que a criança faz no reencontro. Uma vai direto ao cuidador, se acalma e volta a brincar (seguro); outra concentra a atenção nos brinquedos e evita o cuidador (evitativo); e outra fica grudada e brava, difícil de consolar, e não volta a brincar (ansioso-ambivalente) (Ainsworth et al., 1978). Depois Main e Solomon notaram crianças cujas reações não cabiam nas três categorias, como se aproximar do cuidador com cara de medo ou congelar quando ele volta, e criaram uma quarta, a “desorganizada” (Duschinsky, 2018). Essa reação aparece em cerca de 15% das crianças de famílias de classe média, e pode ser duas a três vezes mais frequente em grupos de alto risco, como os de maus-tratos (van IJzendoorn et al., 1999).
A chave para entender os tipos de apego: os eixos ansiedade × evitação
A forma mais usada de descrever o apego adulto é ver onde a pessoa cai em duas dimensões, ansiedade de apego e evitação de apego, e os quatro tipos são só os quatro cantos desse mapa.
- Ansiedade de apego (attachment anxiety): medo de ser rejeitado ou deixado, com muita necessidade da resposta do outro para confirmar “eu sou amado”.
- Evitação de apego (attachment avoidance): desconforto com intimidade e dependência, tendência a resolver tudo sozinho e manter uma distância segura das pessoas.
Brennan, Clark e Shaver (1998) reuniram 60 subescalas e 323 itens das escalas de apego adulto da época e viram surgir dois fatores quase sem relação entre si, justamente ansiedade e evitação; ao dividir as pessoas pelas duas pontuações, os quatro grupos ficaram bem parecidos com a classificação de Bartholomew. Bartholomew usava outra linguagem, “como eu me vejo” e “como vejo os outros”, que dá para mapear grosso modo em ansiedade (pouca confiança em si) e evitação (pouca confiança nos outros) (Bartholomew & Horowitz, 1991).
A mesma casa tem vários nomes em pesquisas e textos da internet, e esta tabela de equivalências vale guardar:
| Nosso teste | Ansiedade / evitação | Quatro categorias adultas | Outros nomes |
|---|---|---|---|
| Apego seguro | Baixa / baixa | Seguro | Apego seguro |
| Apego ansioso | Alta / baixa | Preocupado | Ansioso-preocupado, ansioso-ambivalente |
| Apego evitativo | Baixa / alta | Desdenhoso | Esquivo, evitante, desapegado |
| Apego desorganizado | Alta / alta | Temeroso | Temeroso-evitativo |
As quatro categorias da coluna do meio vêm de Bartholomew e Horowitz (1991); os nomes originais em inglês são, na ordem, secure, preoccupied, dismissing e fearful, e ajudam quando você lê a literatura em inglês.
Voltando à infância, as quatro casas correspondem, de forma geral, aos tipos seguro, ansioso-ambivalente, evitativo e desorganizado. Mas é uma correspondência conceitual: o tipo da infância é comportamento observado, e o do adulto é pontuação de autorrelato, então não dá para igualar os dois.
O modelo de dois eixos traz dois lembretes bem práticos. Primeiro: apego é espectro, não caixinha. Fraley e colegas (2015) usaram uma análise taxométrica para testar se o apego adulto é feito de “tipos” ou de dimensões contínuas, e o resultado apoiou a segunda opção. Então, em vez de “você é ansioso”, o mais preciso é “sua pontuação de ansiedade é alta”; quem fica perto de uma fronteira costuma ter traços dos dois tipos. Segundo: os dois eixos são independentes. Ansiedade alta não significa evitação baixa, e as duas altas caem na casa do desorganizado.
Os dois eixos também correspondem a dois jeitos de lidar com as emoções. Em quem tem ansiedade alta, diante de uma ameaça o sistema de apego tende a “hiperativar”: o alarme aumenta e a pessoa segura o outro com mais força. Em quem tem evitação alta, ele tende a “desativar”: a pessoa se afasta, reprime o que sente e leva a atenção para outra coisa (Mikulincer & Shaver, 2019).
O nosso Teste de estilo de apego segue essa lógica: 14 perguntas de situação somam as duas pontuações, ansiedade e evitação, e depois colocam você numa das quatro casas a partir das fronteiras dos dois eixos. A página de resultado também mostra as duas pontuações, para você ver a que distância da fronteira está.
As características dos quatro tipos de apego: seguro, ansioso, evitativo e desorganizado
A diferença entre os quatro tipos não está em amar mais ou menos, e sim em como cada um volta a se sentir seguro quando a insegurança aparece.
| Tipo | Crença de base | Reflexo na insegurança | O que o parceiro costuma sentir |
|---|---|---|---|
| Seguro | Eu mereço amor e você é confiável | Falar e resolver junto | Estabilidade, boa conversa |
| Ansioso | Tenho medo de não ser bom o bastante e de você ir embora | Conferir, e conferir de novo | Ser necessário e também perseguido |
| Evitativo | Eu me viro; depender é arriscado | Recuar e digerir sozinho | Confiável, mas difícil de alcançar |
| Desorganizado | Quero ser amado, mas temo que amar machuque | Esquenta e esfria | Difícil de decifrar, cansativo |
O reflexo da terceira coluna fica mais claro numa mesma cena. O celular vibra: a pessoa de apego seguro dá uma olhada, sabe que pode responder depois e continua com a bebida quente na mão; a ansiosa aperta o aparelho com as duas mãos, querendo saber já o que veio; a evitativa enfia o celular no bolso e arruma o fone; e a desorganizada estica a mão, hesita e a recolhe em silêncio. Nenhuma reação é certa ou errada; cada uma é o caminho de volta à segurança que a pessoa conhece melhor.

Apego seguro (Ipê de raiz funda): ansiedade baixa, evitação baixa
Quem tem apego seguro também sente insegurança; a diferença é que, quando ela chega, é mais capaz de dizer em voz alta. Se a outra pessoa fica até tarde no trabalho e não responde, pensa “deve estar na correria” e pergunta à noite; numa briga, consegue dizer “vamos respirar dez minutos” e volta mesmo depois disso. O ponto cego é se acostumar tanto a ser “a parte estável” que engole as próprias fases ruins; diante de um parceiro com ansiedade ou evitação altas, essa estabilidade ainda pode ser lida como “você não liga”. O que o apego seguro faz sob estresse e se dá para virar seguro depois estão em Apego seguro: características, causas e como chegar lá.
Apego ansioso (Detetive do vácuo): ansiedade alta, evitação baixa
Quem tem apego ansioso deseja muita proximidade e é sensibilíssimo às mudanças de temperatura na relação: a outra pessoa ficou mais seca, respondeu story de um amigo e não o seu, e o teatrinho mental já entra em cartaz. Essa sensibilidade faz a pessoa perceber os problemas antes dos outros e se entregar por inteiro; o difícil é que o valor próprio fica depositado na velocidade da resposta alheia, o que leva a conferir sem parar ou até a “esfriar de propósito” para testar, e isso acaba afastando o outro. Os gatilhos do apego ansioso e o que acalma estão em Apego ansioso: sinais, causas e como se acalmar.
Apego evitativo (Ilha autossuficiente): ansiedade baixa, evitação alta
Quem tem apego evitativo (também chamado de esquivo ou desdenhoso) cuida bem de si e não terceiriza a felicidade. Só que, quando a relação chega a uma certa proximidade, a ponte levadiça sobe sozinha: a pessoa desvia do assunto quando perguntam “o que a gente é?”, some depois das brigas e diz “tô bem” quando não está. Não quer dizer que não ame; parece mais que “depender” nunca foi muito seguro na experiência dela. Sobre como combinar um tempo para esfriar e como se relacionar com ela, leia Apego evitativo: características, causas e como se relacionar.
Apego desorganizado (Gato do vai e vem): ansiedade alta, evitação alta
O apego desorganizado (na pesquisa com adultos, geralmente “temeroso”) combina ansiedade e evitação altas: a pessoa quer muito ser amada e teme se machucar depois de se aproximar. Quando o outro se aquece, dá vontade de recuar; quando ele recua, dá pânico; nem ela sabe direito “o que eu quero”. Esse padrão costuma se ligar a experiências passadas em que proximidade e mágoa vieram juntas, mas nem todo mundo teve um trauma evidente, e não é uma doença. Para esse tipo, o primeiro passo não é se forçar a confiar de vez, e sim achar uma relação estável o bastante para ir testando aos poucos, e, se precisar, organizar isso com um psicólogo. Para entender como essa vontade de chegar perto e fugir se forma e vai afrouxando, leia Apego desorganizado: por que dá vontade de chegar perto e fugir.
Os tipos de apego na vida real: WhatsApp, gelo, conhecer a família e namoro à distância
Diante da mesma cena pequena, cada tipo de apego lê um roteiro completamente diferente, e é por isso que muito casal sente cansaço sem ter brigado por nada grande.
Ansioso e evitativo:
| Situação | Ansioso | Evitativo |
|---|---|---|
| Visualizada há duas horas | Falei alguma besteira? | Melhor assim |
| Gelo depois da briga | Corre atrás para terminar de falar | Some primeiro |
| Conhecer a família | Medo de não ser aprovado | Adia o quanto der |
| Namoro à distância | Sem chamada de vídeo, fica inseguro | Acha na medida |
| “Preciso de espaço” | Será que acabou o amor? | Que ótimo |
Seguro e desorganizado:
| Situação | Seguro | Desorganizado |
|---|---|---|
| Visualizada há duas horas | Deve estar ocupado | Quer mandar e não tem coragem |
| Gelo depois da briga | Marca hora para conversar | Quer fazer as pazes e quer fugir |
| Conhecer a família | Nervoso, mas animado | Aceita e depois se arrepende |
| Namoro à distância | Combina o horário da chamada | Ora grudado, ora frio |
| “Preciso de espaço” | Beleza, quando a gente se vê? | Alívio e pânico juntos |
As duas tabelas são só um lembrete, e não é preciso se encaixar de pronto. Quando você acha o outro “exagerado” ou “frio”, pode ser que ele esteja lendo a mesma coisa com o roteiro de apego dele.
A armadilha ansioso-evitativo: por que quem mais se atrai é quem mais cansa?
Ansiosos e evitativos costumam andar juntos e travam com frequência no ciclo de “um persegue, um recua”: quanto mais insegurança sente o ansioso, mais confere; quanto mais é perseguido, mais o evitativo se afasta, e o recuo do outro deixa o ansioso ainda mais certo de que “ele vai embora mesmo”. É a cena típica do gelo: um segura o celular querendo terminar a conversa, o outro põe o fone e olha pela janela.

A pesquisa vê uma tendência de pares parecida. Kirkpatrick e Davis (1994) acompanharam 354 casais heterossexuais que namoravam, e a amostra não tinha nenhum par “ansioso com ansioso” nem “evitativo com evitativo”; já as relações com um homem evitativo ou com uma mulher ansiosa foram mal avaliadas pelos dois no começo, e três anos depois estavam surpreendentemente estáveis. Só que é um estudo americano dos anos 1990, e o resultado por gênero não vale necessariamente para hoje. O que se aproveita é a conclusão: uma relação desconfortável nem sempre acaba sozinha, às vezes só fica emperrada.
Para desfazer o ciclo, cada lado recua um passo: o ansioso troca “você me ama ou não?” por um pedido concreto, e o evitativo troca o “sumir” por dizer quando volta. Se vocês sentem que “eu me esforço muito e a outra pessoa não recebe”, vale ler junto as linguagens do amor: o apego fala de onde vem a segurança, e as linguagens do amor falam do jeito de cada um mostrar que se importa.
Como os tipos de apego se formam? Podem mudar?
O estilo de apego tem a ver com o crescimento e as experiências de relação, tem estabilidade moderada e se move aos poucos com a idade e com novas relações, sem ser sentença para a vida toda.
Causas: o cuidado recebido é o começo, mas não o único roteiro
A teoria do apego sustenta que a estabilidade e a previsibilidade da resposta do cuidador são o ponto de partida dos modelos internos da criança (Bretherton, 1992). Pesquisas com adultos apoiam essa direção: um levantamento americano representativo do país mostrou que adversidades interpessoais na infância se associam fortemente ao apego inseguro na vida adulta (Mickelson et al., 1997).
Mas “a culpa é toda da família” também não procede. Mesmo no apego desorganizado da infância, van IJzendoorn e colegas (1999) apontam que comportamentos assustadores do cuidador podem ter papel importante, sem serem a única causa. As amizades, os namoros, os términos e as vezes em que você foi bem acolhido também vão reescrevendo esse roteiro.
Estabilidade: o que significa r = 0,39?
Pinquart e colegas (2013) reuniram 127 estudos e mais de 21 mil avaliações de apego, do bebê ao início da vida adulta, e a correlação média entre duas medições foi r = 0,39, uma estabilidade de nível moderado; quanto maior o intervalo, menos estável, e depois de mais de 15 anos deixa de ser significativa. A metanálise de Fraley (2002) também viu estabilidade moderada da segurança de apego nos primeiros 19 anos de vida: as primeiras experiências deixam efeito, mas não explicam tudo.
Em linguagem simples: a infância deixa marcas, mas funciona mais como “configuração padrão” do que como código gravado em pedra.
Para onde muda: idade, relações e a “segurança conquistada”
Chopik e colegas (2019) juntaram três amostras longitudinais, com 628 pessoas, para estimar mudanças dos 13 aos 72 anos: a ansiedade de apego cai em média com a idade, mais na meia-idade e na velhice; a evitação cai devagar do começo ao fim; e quem está numa relação de casal pontua menos nas duas. Arriaga e colegas (2018) revisaram a pesquisa e propuseram que os dois eixos afrouxam de jeitos diferentes: a ansiedade cai mais em situações que aumentam a confiança em si, e a evitação cai mais em experiências de “depender do outro e dar tudo certo”.
A “segurança conquistada” (earned security) designa quem teve uma infância difícil e desenvolveu na vida adulta um apego seguro. A ideia é animadora, mas discutida: um acompanhamento de 23 anos viu que quem era classificado como “conquistado” por lembranças posteriores não necessariamente havia tido infância mais dura; já quem foi acompanhado desde bebê e de fato saiu da insegurança para a segurança cuidou bem das relações íntimas na vida adulta (Roisman et al., 2002). A mudança acontece, só não convém imaginá-la como uma virada dramática.
Apego evitativo não é transtorno de personalidade: qual é a diferença?
O apego evitativo descreve o hábito de manter distância nas relações íntimas, enquanto o transtorno de personalidade evitativa (avoidant personality disorder) é um diagnóstico que exige avaliação profissional e afeta vários âmbitos da vida; os dois não são a mesma coisa.
Os dois aparecem juntos nas buscas, e as diferenças são estas:
| Comparação | Apego evitativo | Transtorno de personalidade evitativa |
|---|---|---|
| O que é | Tendência nas relações, comum | Diagnóstico psiquiátrico de personalidade |
| Sentimento central | Desconforto em depender, hábito de se virar | Sentir-se inadequado, temer muito a crítica |
| Atitude diante da proximidade | Costuma achar que não precisa muito dos outros | Deseja se ligar, mas evita por medo de rejeição |
| Alcance | Sobretudo as relações íntimas | Trabalho, amizades e vários outros âmbitos |
| Como avaliar | Questionário de autorrelato mostra a tendência | Psicólogo ou psiquiatra, com critérios diagnósticos |
Segundo a Cleveland Clinic, a prevalência do transtorno de personalidade evitativa nos Estados Unidos é estimada em 1,5% a 2,5%, e o tratamento principal é a psicoterapia. Seu jeito de “querer se aproximar, mas temer a rejeição” lembra, na descrição, mais a casa em que os dois eixos são altos do que o evitativo puro; é só uma analogia para ajudar a entender, e não uma correspondência diagnóstica. Se sua dúvida é sobre o segundo caso, procure um profissional e não use nenhum teste online para se diagnosticar, o nosso incluído.
Caminhar para o apego seguro: exercícios de cada tipo e quando pedir ajuda
Para deixar o apego mais seguro, mais útil do que trocar de parceiro é treinar dizer com clareza no lugar de adivinhar e fugir quando a insegurança aparece, e procurar ajuda profissional quando for preciso.
Comece por um exercício que serve para os quatro tipos: nas próximas duas semanas, toda vez que surgir uma insegurança ou vontade de fugir clara na relação, anote três coisas: o fato que aconteceu, a interpretação que apareceu sozinha na sua cabeça e o que você de fato fez. Depois de algumas vezes, você começa a enxergar a cara dos seus gatilhos, e isso é o primeiro passo da mudança.

Como o gato da imagem, não precisa escrever bonito: poucas palavras-chave bastam, desde que fique registrado. Depois de algumas anotações, escolha uma coisa para treinar conforme o seu tipo, em linha com o que a pesquisa indica: quem tem ansiedade mais alta precisa sentir “eu tenho valor” também fora da relação; quem tem evitação mais alta precisa de várias experiências de “depender e ficar tudo bem” (Arriaga et al., 2018); e o desorganizado, com os dois eixos altos, aproveita os dois tipos de experiência.
| Tipo | Um exercício para começar | Uma frase para usar direto |
|---|---|---|
| Ansioso | Quando der vontade de mandar várias mensagens, esperar 20 minutos antes de decidir | “Hoje estou com o coração apertado. Antes de dormir, você me manda um boa noite?” |
| Evitativo | Quando precisar de espaço, dizer quando volta | “Preciso de uma hora para me organizar. Volto às nove para a gente continuar.” |
| Desorganizado | Dizer a contradição em vez de mostrá-la em atitudes | “Agora quero ficar perto e também fugir um pouco, e não é culpa sua.” |
| Seguro | Quando for a sua vez de estar frágil, deixar o outro cuidar | “Esta semana foi puxada. Hoje é você quem cuida de mim, pode ser?” |
Quando buscar ajuda profissional? Se a insegurança ou o esquenta e esfria na relação já afeta o sono, o trabalho ou as amizades, ou se lembrar do passado machuca muito, conversar com um psicólogo é uma ótima escolha. Se você está num momento muito difícil ou pensando em se machucar, o CVV atende pelo 188, gratuito, 24 horas por dia, também por chat e e-mail. Em risco imediato, ligue para o SAMU (192) ou para a polícia (190); em caso de violência ou ameaça na relação, mulheres também podem ligar para o Ligue 180, gratuito e 24 horas.
Para ver sua posição nos dois eixos, faça o Teste de estilo de apego e depois leia o texto sobre o apego seguro, ansioso, evitativo ou desorganizado. O resultado é só a sua coordenada no mapa hoje, e ela ainda vai se mover.
Faça o teste
Perguntas frequentes
Quais são os quatro tipos de apego?
Os quatro tipos mais citados são o seguro, o ansioso, o evitativo e o desorganizado (na pesquisa com adultos, também chamado de temeroso). Eles resultam de duas dimensões: ansiedade de apego (quanto você teme ser deixado) e evitação de apego (quanto depender dos outros te incomoda). As duas baixas dão o seguro, só a ansiedade alta dá o ansioso, só a evitação alta dá o evitativo, e as duas altas dão o desorganizado.
Qual é a diferença entre apego e vínculo?
Nenhuma de fundo: em português, “apego” e “vínculo” costumam traduzir o inglês attachment, e a teoria do apego também aparece como teoria do vínculo. Do mesmo modo, evitativo, esquivo e evitante são traduções de avoidant. Vale saber que “apego” é o termo mais comum em pesquisa e nas buscas, e que ele descreve tendências nas relações, não uma categoria oficial de personalidade.
O tipo de apego pode mudar?
Pode, em geral aos poucos. Uma metanálise encontrou estabilidade moderada da segurança de apego: quanto maior o intervalo entre as medições, menos estável, e depois de mais de 15 anos a relação deixa de ser significativa. Estudos longitudinais também mostram que, em média, ansiedade e evitação caem com a idade, e que quem tem parceiro pontua menos nas duas.
Apego evitativo é o mesmo que transtorno de personalidade evitativa?
Não. O apego evitativo é uma tendência comum, que aparece sobretudo em relações íntimas. O transtorno de personalidade evitativa é um diagnóstico que exige avaliação de psicólogo ou psiquiatra: gira em torno de se sentir inadequado o tempo todo e temer muito a crítica e a rejeição, o que atinge trabalho, amizades e vários outros âmbitos da vida.
O teste de apego é confiável?
Um teste de autorrelato mostra sua tendência atual nas relações, mas não é diagnóstico. O resultado é influenciado pela fase da vida e da relação, e quem fica perto de uma fronteira pode ter traços de dois tipos. O melhor uso é como ponto de partida para observar em que situações você fica mais inseguro ou tem mais vontade de fugir.
O que acontece quando um ansioso e um evitativo ficam juntos?
É comum um ciclo de perseguir e recuar: quanto mais inseguro o ansioso, mais confere; quanto mais cobrado, mais o evitativo se afasta. Um estudo de 1994 com 354 casais não achou nenhum par ansioso com ansioso nem evitativo com evitativo, e relações com homem evitativo ou mulher ansiosa foram mal avaliadas, porém estáveis. O caminho é o ansioso fazer pedidos específicos e o evitativo dizer quando volta.
Referências
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- Disorganized attachment in early childhood: Meta-analysis of precursors, concomitants, and sequelae · Development and Psychopathology, 11, 225-250 (van IJzendoorn, Schuengel & Bakermans-Kranenburg) · 1999 · doi.org
Mostrar os 15 restantesMostrar menos
- Disorganization, fear and attachment: Working towards clarification · Infant Mental Health Journal, 39, 17-29 (Duschinsky) · 2018 · doi.org
- Romantic love conceptualized as an attachment process · Journal of Personality and Social Psychology, 52, 511-524 (Hazan & Shaver) · 1987 · doi.org
- Attachment styles among young adults: A test of a four-category model · Journal of Personality and Social Psychology, 61, 226-244 (Bartholomew & Horowitz) · 1991 · doi.org
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- Are adult attachment styles categorical or dimensional? A taxometric analysis of general and relationship-specific attachment orientations · Journal of Personality and Social Psychology, 109, 354-368 (Fraley, Hudson, Heffernan & Segal) · 2015 · doi.org
- Attachment orientations and emotion regulation · Current Opinion in Psychology, 25, 6-10 (Mikulincer & Shaver) · 2019 · doi.org
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- Meta-analytic evidence for stability in attachments from infancy to early adulthood · Attachment & Human Development, 15, 189-218 (Pinquart, Feußner & Ahnert) · 2013 · doi.org
- Longitudinal changes in attachment orientation over a 59-year period · Journal of Personality and Social Psychology, 116, 598-611 (Chopik, Edelstein & Grimm) · 2019 · doi.org
- Revising working models across time: Relationship situations that enhance attachment security · Personality and Social Psychology Review, 22, 71-96 (Arriaga, Kumashiro, Simpson & Overall) · 2018 · doi.org
- Earned-secure attachment status in retrospect and prospect · Child Development, 73, 1204-1219 (Roisman, Padrón, Sroufe & Egeland) · 2002 · doi.org
- Adult attachment in a nationally representative sample · Journal of Personality and Social Psychology, 73, 1092-1106 (Mickelson, Kessler & Shaver) · 1997 · doi.org
- Attachment style, gender, and relationship stability: A longitudinal analysis · Journal of Personality and Social Psychology, 66, 502-512 (Kirkpatrick & Davis) · 1994 · doi.org
- Avoidant Personality Disorder · Cleveland Clinic · 2023 · my.clevelandclinic.org
- CVV - Centro de Valorização da Vida · Centro de Valorização da Vida (CVV) · 2026 · www.cvv.org.br
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